Before Senility (RIP Geoffrey Hill)

Foi Bruno Tolentino quem me aconselhou a ler o recém-falecido Geoffrey Hill. Fi-lo tão logo pude, e desde então o tenho entre meus poetas prediletos. Até o início dos anos noventa, Hill escrevera relativamente pouco: os New and Collected Poems (1952-1992) têm pouco mais de duzentas páginas, o que, então, fazia da sua – a despeito da qualidade – uma produção realmente exígua. De repente, porém, aconteceu algo incomum: e nos vinte anos posteriores ele lançou onze livros, isto é, mais que o dobro dos cinco compostos na sua primeira floração (que durou o dobro do tempo).

Um deles, intitulado A Treatise of Civil Power (2007), faz aberta referência ao homônimo de Milton – cujo subtítulo, porém, bem ao gosto do século XVII, acrescenta “showing that it is not lawful for any power on earth to compel in matters of religion”. É, pois, inequivocamente na esteira do debate, suscitado pela Guerra Civil de 1648-1649, acerca da relação entre poder temporal e devoção religiosa que se coloca este livro de Hill. Que um livro de poemas, contudo, e não um tratado de teologia moral ou filosofia política, trate deste tema, eis o que não deixa de espantar.

Geoffrey Hill é geralmente considerado um poeta hermético e, numa palavra, difícil. Mas mesmo a crítica mais especializada parece concordar com que, nesta sua segunda “fase”, ele tenha se tornado um pouco menos abstruso – ou mais prolífico, ao menos. O próprio Hill o confessa; e atribui parte da verve que o acometeu ao efeito benfazejo dos ansiolíticos – e parte a um segundo casamento, finalmente “feliz”.

Confesso não ter grande interesse pela biografia dos meus autores – justamente porque, como toda biografia, é cheia de detalhes insignificantes, vulgares, mesquinhos demais. Minha fantasia adora criar super-heróis: Super-Camões, Goethe-de-Ferro, Leopardi-Verde… Mas, com a possível exceção de Tolstói, o facto é que os grandes escritores, excepto por escreverem bem, são homens como os demais. Que tomam ansiolíticos e se casam pela segunda vez.

Há um poema neste seu livro que, segundo me parece, justifica de maneira menos acidental, menos mundana, a guinada de Geoffrey Hill. Chama-se “Before Senility” (p. 41). Como é um poema curto, reproduzo-o por inteiro:

 

BEFORE SENILITY

 

dum possum volo

 

Intermezzo of sorts, something to do with gifts.

In plainer style, or sweeter, some figment

of gratitude and reconciliation

with near things, with remnancy and love:

 

to measure the ownerless, worn, eighteenth-

century tombstones realigned like ashlar;

encompass the stark storm-severed head

of a sunflower blazing in mire of hail.

 

O estilo alusivo parece o da sua primeira “fase”. Mas só parece: pois a ausência de rima, e certa aspereza no ritmo; a recusa do transcendental, e a reconciliação com as coisas mais próximas; o par morte-consagração, enfim, condensado na poderosa imagem do último verso – tudo isso nos leva a crer, somando-se ao título e à epígrafe do poema, que temos diante de nós um exemplo muito bem acabado do que chamaríamos, por falta de melhor nome, estilo de velhice.

Virgílio é bem mais permissivo, digamos assim, ou mais indulgente com exceções e desvios do cânone métrico na Eneida, sua última obra, que nas Bucólicas, sua primeira. O carácter um tanto anguloso e áspero da sintaxe, do ritmo e da métrica ajudou os camonistas a classificar as “Redondilhas de Sôbolos Rios” como obra de velhice, se não mesmo como o testamento poético de Camões. E uma comparação entre a limpidez neoclássica de As Horas de Katharina e a obsessiva polirritmia de A Imitação do Amanhecer – a última obra de Bruno Tolentino – parece, por fim, confirmar o que os outros exemplos já sugeriam: que a própria forma, a certa altura da carreira de um poeta, fica mais flexível, mais generosa, menos arrogante, menos regular, mais humana. Como se a morte, biográfica ou simbólica que seja, se infiltrasse, sorrateira, no ritmo de cada frase, na disposição de cada verso, na composição de cada estrofe.

Descanse em paz, Sir Geoffrey Hill.

Quarentão Casado Procura

TAPACÁ TACAPÁ – vou correndo e parado assoviando o que dá na telha estatelado estirado esfalfado na vida escrotal dessa escrota cidade o clichê quanto clichê não consigo largar o clichê misturado no estrume dessa rua dessa casa desse quarto vou silvando correndo o que calha o que rola ontem adoeci uma tosse filha da puta e assim doente mais sensível parece a umas vibrações do neon o que eu quero dizer é que não vale a pena nunca valeu a pena essa vidinha arrumada e tudo certo no lugar e tudo médio e tudo merda e tudo a vida vai transcorrendo feito mijo de chope mijo grosso e viscoso às vezes a gente se sente essa nulidade sempre me sinto essa nulidade quarenta anos e nenhum sonho em carne nenhum nenhum queria ser escritor o que é ser escritor sempre tudo calculado sempre tudo um balancete fiz verso quadradinho e redondinho e nada rima rica e rara nada ritmos gregos em português e nada atualizei a sátira renovei a bucólica e um pé na bunda um dedo no cu será que eu nasci pelo cu só pode ser só assim se explica essa aberração ser um miasma de revista postema matemático perfeito uma escultura é mas não infeccionar não escorrer eu queria explodir tudo mas já explodiram isso de escrita automática é tão velho quanto sonetelhos já fiz de tudo testei várias técnicas vários lances li toda a agudeza e arte de engenho aprendi a aplicar e nada ninguém percebe ninguém vê ninguém lê ninguém se importa (por que se importariam) errei de profissão de vida de – nasci pelo cu acho que já falei mas lendo uns baratos de magia me empolguei um pouco a besta o bruxo hermes três vezes magno todos dizem a mesma coisa o contrato é o canal é o pacto é único que te salva e redime então escrevo essas linhas quero: não sei o que quero sei sim o que quero o que todo mundo quer e sempre quis sempre sempre

 

ABRO O TARÔ sinto o sangue queimar a veia ferve você leitorzinho de merda de merda de merda que flana na paulista que flutua na madá limpinho racionalzinho livre de jugos e de superstições que nunca olhou os postes é os postes dessa porra de são paulo o que mais tem em são paulo é macumbeiro bruxa charlatão despacho mas você não vê mas você não lê não levanta a cabeça não acredita no fundo se não der naquele jornalzinho pra você não existe – então o que eu quero eu quero o que todos querem grana pica glória buceta quem é que não quer aí invento um cara que senta no computador disposto a fazê-lo invento alguém que escreve pronto a redigi-lo um contrato é não eu claro não eu os fucôs e derridás que o meu leitorzinho tanto ama já disseram que o autor morreu já denunciaram a falácia do biografismo então como ia dizendo não eu fulanão por mim e daí o fulano redige que dava tudo dava até o cu se preciso fosse contanto que tivesse o que quer e abrindo o tarô vai sentindo um negócio doido tipo gastrite na corrente sanguínea não no estâmago e pensa em camões ao escrever estâmago será que ele também fez será deu tudo o que tinha pra dar com os lusíadas o fulano tá pirando o sucesso tá lá tá inscrito nos tarôs e aí ulcerando-se de gozo o fulano levanta invoca voca e – e: e

 

LEMBRA dos filhos da mulher da cruz tem uma cruz pregada na parede lembra do outro na quinta-feira sussurrando sozinho os amigos roncam sabendo claro a par total do que tava pra acontecer e lhe veste a pele (inacinho ensinou) tenta tocar sentir de dentro o que rolava aí ouve o cujo vê o coiso isso sempre aparecia pra ele e ele lá meio de bruços no esse copo eu não quero me traz outro se puder mas pegando e tomando e engolindo a parada – imagina o primeiro soco os cuspes e vergastões aí a croa espinhenta e no morro o cruzaço e alfim pregos carnagem o lado aberto esguichando uma água vítrea – cês sabem (o leitorzinho talvez não): e pensa na bosta do seu contrato no descabimento da sua lamúria na bitola do pau no seu cu na sua verminose no seu câncer e se toca que a vida até ri até pra ele que tem bem ou mal o que merece e o que quer sempre teve o que quis e o que traçou porra filhos mulher tudo redondo e quadrado poeminhas certinhos e compasso romano arranjado pra bossa-nova e até que fica feliz se sente leve redimido picota o contrato e é um pai-seja uma ave-ela e um beijaço na cruz que lhe encrua a parede

Santos no Altar

Mais de um amigo me convidou a listar quinze autores importantes pra mim, ou que me influenciaram, ou que considero modelos — algo assim.

Eles fizeram suas listas, as quais verifico foram feitas de boa-fé — são sinceras — porque os conheço suficientemente bem e sei da importância dos autores mencionados na vida e na carreira de cada um.

No meu caso, porém, como ando buscando um lugar ao sol — maneira poética de dizer que faço alguma política literária: acho que não escrevo tão mal e constato que o reconhecimento que tenho é ainda pior que o não tão mal que acho que escrevo: e quero mudar essa situação –, essa lista seria uma ocasião de eu fazer panca, de, sub-repticiamente, associando o meu nome ao de uns figurões do cânone, dar a entender que escrevo tão bem quanto eles, e abocanhar um pouco do seu prestígio.

Faz parte do jogo, mas não se enganem: seria historinha pra boi dormir.

O Borges de “Kafka e seus Precursores” e o Eliot de “Tradição e Talento Individual” já meio que explicaram: falar de influência é um negócio impreciso pois tudo o que lemos de um jeito ou de outro nos marca, então — “influência” em termos mais exatos é um negócio retrospectivo, tipo profecia do fato acontecido, e, acrescento eu, é só mais um caso em que a romântica modernidade deu um nome obscuro ao claro e claríssimo grego e latino “imitação”.

Então: imitação é proceso consciente. Você elege modelos de forma e de fundo e compõe com aquela técnica e versa aqueles temas.

Nesse sentido eu poderia falar em autores que me influenciaram (formulação imprecisa) ou, em termos mais exatos, em autores que imitei.

Imitei Hoelderlin em “Deu Branco” e Goethe em “Dois” (a série de poemas, não o livro).

Imitei Virgílio em “Estudo Barroco para um Poema Moderno”, “Bucolicazinha” e “Ou Ela ou Eu”.

Imitei Juvenal em “Charcutaria”.

Imitei Teócrito e o São Jerônimo da tradução latina de O Livro de Jó em “Farra do Boi”.

E, last but not least, aprendi com Camões — que é quem eu mais imito — a usar paradoxos e oximoros e outras barroquices e maneirismos afins, e este eu acho que é o principal e mais importante traço da minha dicção.

That’s all, folks.

Quê que eu tô fazendo

No meu último textinho eu falei um pouco (1) do cânone, que, assim sem maiores qualificações, designa o mainstream mais mainstream da poesia ocidental, e (2) de como, na minha prática poética, eu vivo apelando a essa como suprema corte — via de regra sem sucesso; o que importa, segundo eu disse também, em (3) eleger a emulação / imitação de modelos autorizados como expediente fulcral da composição e, consequentemente, em (4) restringir muitíssimo o círculo de leitores e interlocutores e detratores (Dai-me um bom inimigo, e serei quem eu sou — se ninguém o disse, esteja dito.)

Prometi-lhes um exemplo, parquíssimos leitores, então aqui vai.

Tome-se a minha “Charcutaria”, por exemplo, constante de Poesia Bovina, o poema de que mais gosto do livro de que menos desgosto.

Contando cento e dez versos, o poema é literalmente, etimologicamente uma sátira — que, por sua vez, segundo a origem romana do gênero, é um tipo de linguiça ou embutido em que metiam de tudo, em que cabia de tudo. Dessa maneira, ao chamá-lo de “Charcutaria” eu quis filiar meu poema à própria raiz da sátira romana, cujo principal expoente, contudo, não é o inventor — no caso, Lucílio — nem o reinventor — isto é, Horácio –, mas muito provavelmente o epígono: Juvenal.

Escolhido o gênero satírico e o guia juvenalesco, eu usei livremente os motivos que mais me tocaram das sátiras 1 e 10 do grande poeta de Aquino (sim: ele também nasceu nessa cidade).

Quanto à métrica, — sou o taradão da métrica, né?, rerrerrê — inventei o seguinte esquema acentual para o obsolescente decassílabo vernáculo (note-se:  _ = sílaba tônica; v = sílaba átona):

a) v_ v v_ v v_ v_

b) v v_ v_ v v_ v_

c) v_ v_ v v _ v v _

d) v v_ v_ v_ v v _

e) v_ v v _ v_ v v _

e) v_ v v _ v_ v v _

d) v v_ v_ v_ v v _

c) v_ v_ v v _ v v _

b) v v_ v_ v v_ v_

a) v_ v v_ v v_ v_

E aí? Não basta isso que mencionei, claro: é preciso parecer natural — e, sobretudo, ser criativo e engenhoso na manipulação da cadência e dos motivos — para que o poema vingue. Vingou? Alguns amigos disseram que sim, e isso me basta. (Passo em branco os que disseram que não porque eu não sou besta.)

Agora: eu exijo tudo isso do leitor para fruir o poema? E aqui a resposta é (1) não e (2) sim. (1) Não, porque, em geral, eu maquio e envernizo essas questões técnicas com um enredo mais ou menos interessante e dou um tratamento o mais possível racional e lógico aos motivos juvenalescos, de maneira que o poema agrade um pouco ao leitor culto e esforçado, mesmo que nunca tenha lido Juvenal. E (2) sim, porque, como foi o caso do Prof. Dr. Antônio Sérgio Bueno, emérito da UFMG, que leu primeiro Juvenal, em seguida o meu poema, e daí o comentou, — tudo em mensagens privadas que muito me envaidecem — o facto é que o poema tem esses extratos e camadas eruditas, quer o leitor queira ou não, e, a fim de degustá-lo como convém, requer-se sim um pouco de leitura e preparação.

Nada obstante, espero sinceramente que o poema-linguiça agrade ao maior número possível de leitores, independentemente do grau de instrução. Estampo-o e dou adeus: tchau, galera!

Charcutaria

a Eugênio Benedito Nogueira

 

Cansei de escutar papo-aranha, ui ui,

versalhada frouxa de euzinhozinho,

calado e sem retrucar; de engolir

um cuzinho azedo, o teor do sovaco,

boceta espoleta e afins no café-                                                                                  5

-com-leite; de ver que cujo, que coiso, que

curupira dita a dança, pisando no

meu pé e no teu: faz dodói?; vou falar

a verdade: carne pra encher linguiça

não falta, o difícil é o tempero, e o quanto                                                                  10

de cada e por que – o segredo, a arte

da charcutaria; a maturação; e

se o prato é chumbo, freguês, vai com calma.

“Onde chumbo?; amigo, é tudo linguiça,

cartucho que, em vez de pólvora, impacta                                                                  15

com porco empastado”. E alguma pimenta.

“Ê, migué; pois bom bom mesmo só fica

se a porca espana”. O senhor me desculpe,

mas… “Entulha, homem, é calor no talo”.

E é arte isso aqui, tudo bem?; fazer                                                                            20

arder é só parte da coisa. “Olha:

se cê saca um certo matinho, um lance,

não tô nem tchum, não importa, contanto

que a saliva estale, exploda a papila e

demore na boca um raio solar”.                                                                                   25

Não sei se o embutido aqui pode tanto,

meu querido – ainda assim, se quiser

exp’rimentar o melhor desta casa,

é por nossa conta, é iguaria justa e

bem-feita, talvez, e não fica mal                                                                                  30

na velha bandeja de um bom poeminha.

 

Sem meter na tripa a biscate esperta

chupando tudo do mole vovô

seu esposo; argh! pastor bastião

do macho costume a abrir outro rego                                                                          35

na Rego; a sensibilíssima páti,

defensora-mor de bagre e macaco e

galinha, três abortinhos nas costas

– sem meter edil, auditor, Brasília,

a fossa da Terra de Santa Cruz                                                                                   40

(que extensa linguiça não dava): quem,

do da Prata ao alto Amazonas, sabe

triar o torto e o direito, e aproveita

quando chove e quando não, e não vive es-

-molando o do seu vizinho?; mendigo ou                                                                    45

nababo, ninguém envelhece contente

se não tem ideia assim do que quer,

e pasta, anfíbolo feito um centauro;

se não morde, “É ouro-de-tolo”, “É ouro”,

e clama ao tinhoso maneta “A mão, por                                                                     50

favor”; se não sente o que cargas d’água

e pra quem pedir, afinal, ao léu

do beleléu. “Vida longa: é só isso

o que peço, só, mais nada além disso”.

Mas quanto acidente vai te cruzar                                                                              55

o carro na longa estrada, bobinha

– um maracujá chupado no rosto,

escama em vez dessa pele de seda

e mais banha e pelo que a orangotanga ou a

gorila inda é pouco. Este moço é mais                                                                        60

bonito que aquele, um terceiro, mais

talentoso que ambos os dois: mas todo

velhote é em tudo igualzinho, avoado

e banguela e, caso não existisse

a miraculosa pílula azul                                                                                               65

(quando ela dá conta), antes te dava

ũa lesão de esforço repetitivo,

mulher, que cê conseguia fazer

papagaio voar. E não só: aquela

canção do teu Schubert, o tal retrato                                                                           70

demais parecido contigo – lembra, o do

Ticiano? – é coisa que orelha velha

não ouve, e olho decrépito não en-

-xerga mais. Pior, porém, que esses males

do corpo é ser pego pelo alemão,                                                                                75

e não conhecer marido nem filhos,

ou, no caso dele, fiar a custódia

dos bens a alguma piranha qualquer,

e babar bonito na gola. Enfim,

a quanto velório a vovó não vai,                                                                                 80

trocando o arco-íris no seu armário

pela noite escura?; com alguma sorte,

o do seu cacho e cunhados e irmãs,

quando não da filha e alguma sobrinha.

– E aqueles rabiscos do último Pablo,                                                                         85

e os versos de merda, Carlos, e agora?,

que vocês, ã, cometeram gagás?;

“Era Manhã de Setembro”, eu te ponho

algo acima, ah ponho, do Claro Enigma

todinho, por conta do teu valor pro-                                                                          90

-filático: “Não imitar”. Se vida

alongada, pois, é uma longa lista

de soco e chute na cara, e dinheiro

e poder e nome, tão desejáveis

aqui, lá no além são sombra, o que posso                                                                   95

querer, o que dura, então, quando em mim,

e depois no coração, na cabeça

de alguns?; na igreja, no quarto, ao ar livre,

vou pedir primeiro coragem na hora

da morte, e no trato com a gente má,                                                                          100

paciência; em seguida, jamais perder

a estribeira em poço sem fundo, e sempre

achar a cruz melhor paga que a prata;

e engolir num gole o fel que nos dão,

e, depois de arrotar, soltar um risinho;                                                                       105

em suma: viver como homem, não rato,

e, se algum latim ainda funciona,

mens sana in corpore sano – isso é tudo;

o que acaba com esta linguiçazinha

e fecha a cozinha, meu nego; tchau.                                                                            110

Cânone e Cânones

Então: em duas aulas distintas — uma sobre as odes heterométricas de Ricardo Reis, outra sobre Os Lusíadas — calhei de falar do cânone (?), i.e., daquela poesia que, (a lista é mais ou menos ilustrativa e totalmente parcial) partindo de Homero e a tríade trágica, passa por Virgílio, se ramifica em Dante, Camões, Shakespeare, Góngora, Racine, Goethe, e deságua no alto modernismo da Europa e das Américas: Valéry, Rilke, Antonio Machado, Pessoa, Eliot, Montale, Drummond. Etcétera.

O legal foi que em ambas as aulas, um aluno (não o mesmo) praticante do “ritmo e poesia” ou REP, em português, me perguntou se esse tal de cânone era a única alternativa, e a única instância de legitimação de todo e qualquer discurso poético.

Ao que obviamente eu tive de responder que não.

Vocês podem achar que eu estou exagerando, mas foi somente nesta segunda vez que me vi interpelado dessa maneira que me liguei no seguinte: há várias instâncias de legitimação de um discurso poético.

“A Terra é redonda, Érico.”

(Descobri depois de 37 anos: antes tarde do que nunca…)

De maneira que, fazendo a palinódia de minhas ideias, acho que, entre as muitas instâncias que legitimam um discurso poético, há também — uma entre tantas — a que se reclama abertamente da lista que esboçamos. É uma entre outras, não necessariamente a mais pujante, mas possivelmente a mais antiga, no Ocidente.

É a essa instância que eu vivo a apelar — mas os juízes são severos.

O que redunda, primeiro, em eleger a imitação / emulação de modelos autorizados como expediente fulcral da composição (o eliotiano o bom poeta é o bom ladrão, lembram?); segundo, em projetar um leitor talvez inexistente e com certeza muito raro, que se compraza no jogo de detetive de desvendar alusões eruditas e referências obscuras; terceiro, em, afora uns dois ou três, não ter com quem conversar, e viver com o romântico “Ninguém entende o que eu faço”.

No próximo texto vos dou um exemplo, galera.

Até!

 

Poesia e Autoconsciência

Não sei como é com os colegas — mas comigo a composição de um poema (ou até de um ensaiozinho…) está indissoluvelmente ligada a um como recolhimento, a uma estudiosa atenção ao que se passa em mim, a uma necessidade de medir minha temperatura moral, a uma vontade de mapear minha atividade anímica, e a um empenho, eis o ponto, de conhecer-me melhor, de ser franco, de não mentir.

No fundo, no fundo, sempre concebi e pratiquei literatura como uma das modalidades da busca da verdade — acho que é isso. E, se essa busca pode ser leiga ou religiosa, quem, como eu, professa uma religião pode e deve buscar essa verdade, em sua modalidade literária, valendo-se da tradição espiritual que tem à disposição.

É por isso que, no meu caso, As Confissões, A Imitação de Cristo, Exercícios EspirituaisO Castelo Interior ou algo que os valha estão sempre aqui do meu lado, colocando-me no devido lugar e afinando o meu instrumento, quando calho de fazer literatura. Exercitando-me na sua disciplina — que te ensina, basicamente, a olhar pra você mesmo a olho nu e cru, sem lentes deformadoras nem luzes artificiais —  , consigo, às vezes, encontrar o tom do que quero dizer, e bem ou mal executar a pauta que entreouvi.

Vejam: o que está em jogo, pra mim, ao fazer literatura, é dizer a verdade sub specie fictionis. Não se precisa da ajuda do Espírito Santo para fazê-lo, suponho, e o exemplo de Sócrates tá aí pra provar (se bem que ele tinha Apolo…). Mas enfim — comprometer-se com a verdade tendo Deus por testemunha acho que ajuda um pouco. Torna a coisa mais difícil, exigente, tautologicamente verdadeira.

Pelo menos pra mim, claro.

E que se note: não pretendo fazer apologia de nada — só descrever, quanto possível fielmente, o que se passa comigo (sabendo quão pouca valia isso tem).

Tomara que não enfade…

Fui!

Medidas Antigas (Não é o que v. pensa)

Faz um tempo já — coisa de cinco anos, talvez mais — que vem recrudescendo, no Brasil e lá fora, a moda de adaptar e reproduzir medidas gregas e latinas em língua moderna.

Tudo está no seguinte: escolhe-se uma escansão ou uma maneira de ler e recitar a coisa e nela se baseia a adaptação moderna do metro antigo em questão. E como há várias maneiras de ler…

Tem gente boa fazendo a parada, como Guilherme Gontijo Flores, Rodrigo Tadeu Gonçalves, Leonardo Antunes e… — em regra dentro da academia, como poetas-pesquisadores, poetas-tradutores ou poetas-docentes, o que prova que nem sempre, afinal, a academia é obstáculo intransponível à criatividade e ao estro (gostou de “estro”?).

Enfim: eu também tomei parte nessa moda então acho que posso fazer um mea culpa: o metro é só um dos elementos do estilo; importante, basal, — mas exclusivo não; de maneira que, se o que se quer é reproduzir a elocução do poeta em causa, ela por definição não se limita ao metro.

Ah: e lendo a história da ode horaciana em língua moderna — sobretudo em italiano, espanhol e português –, percebe-se, primeiro, a importância de Petrarca, que fez com que as formas fixas da poesia romance correspondessem, analogamente, às estrofes latinas; e, segundo, que a utilização dessas formas fixas, com o fito de reproduzir medidas horacianas, faz parte da história das tentativas de reprodução de metros antigos em línguas modernas.

Ou por outra: Filinto Elísio e Ricardo Reis são mais poetas do que eu — e mais horacianos do que eu, rerrerrê.

Um sonetelho pra acabar:

A um horaciano up to date

Quando um cu cresce, e vira rola ou tcheca,
e o peido rarefeito se esparrama
e a última gota gorda na cueca
apodrece-te a vida tão sacana,

e quando a gostosíssima moqueca,
não de cação — tá louco? –, de piranha,
desmancha-se na boca feito banha
e cê toca uma bronha pra moleca,

é quando a vida, pá, discorre e fede,
e quando cê se liga “Eu sou um bosta”,
e quando tudo é porra velha e breu:

nesses domingos pelas minhas costas,
eu de gastura, de ressaca e febre,
fico chocando um ovo que morreu.